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"Percebemos que um texto, assim como a vida, é feito de detalhes: uma vírgula fora do lugar pode fazer toda a diferença, mas que tudo só termina quando for colocado o último ponto final".

Ruleandson do Carmo

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- Aonde - Por Dílson Catarino

- Qual é o sujeito? - Por Thaís Nicoleti

- Ordem dos Termos - Por Thaís Nicoleti

- Verbo "Intervir" - Por Thaís Nicoleti -

- Verbo "Custar" - Por Dílson Catarino

- Nomes de cores - Por Thaís Nicoleti

- Locuções de valor negativo - Por Thaís Nicoleti

- O ex- e o antigo - Por Thaís Nicoleti

- Verbo "Extorquir" - Por Thaís Nicoleti

- Verbo "Ressarcir" - Por Dílson Catarino

-Verbo "Perguntar" - Por Dílson Catarino

- A colocação pronominal - Por Thaís Nicoleti

- Paralelismo e Correlações - Por Thaís Nicoleti

- Sem sujeito próprio, infinitivo não se flexiona - Por Thaís Nicoleti

- Verbo "Fazer" - Por Dílson Catarino

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- Aonde -

"Aonde está você?"

O cantor Lobão tem uma música maravilhosa em que diz: "Aonde está você? Me telefona. Me chama, me chama, me chama..."

Harmonicamente perfeita, mas gramaticalmente não. Lobão, porém, pode errar; os poetas e compositores têm direito a utilizar o que chamamos de licença poética, que é uma espécie de autorização para usar frases que fujam ao padrão culto da língua. Vamos, então, analisar a licença poética utilizada por Lobão.

Só se deve usar aonde, quando houver ideia de movimento, de destino, ou seja, só com verbos como ir, vir, voltar, chegar, cair, comparecer, dirigir-se, que exigem a preposição a. Por exemplo:

Aonde você irá à noite?; Aonde chegaremos, com você agindo dessa maneira?; Aonde caíram as moedas?

Não havendo ideia de movimento, mas sim de procedência, deve-se usar donde, ou de onde. Por exemplo:

Donde você veio?; De onde você é?

Não havendo ideia de movimento nem de procedência, usa-se apenas onde. Por exemplo:

Onde você encontrou isso, menino?; Onde vocês guardaram minhas roupas?

O que nunca se pode usar é daonde nem naonde. Então, corrigindo a frase apresentada, teremos:

"Onde está você?"

Outra licença poética usada por ele é de colocação pronominal. O certo é "Telefone-me. Chame-me, chame-me, chame-me", mas, convenhamos, fica bem melhor como Lobão cantou, não é mesmo? E isso é assunto para outra hora.

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- Qual é o sujeito? -

"O brasileiro adora ler. Basta chegar às suas mãos bons títulos a preços baixos."

O verbo deve concordar com o sujeito. Esse é o princípio básico da concordância verbal em português. Boa parte dos equívocos relativos a esse tema ocorre porque o sujeito não foi corretamente identificado.

No período acima, temos a sequência "basta chegar", que pode parecer, à primeira vista, uma locução verbal. Só à primeira vista, pois "bastar" não é um verbo auxiliar de "chegar" (como o seriam "pode" ou "deve" em formulações como "ele pode chegar" ou "eles devem chegar").

O sujeito de "bastar" é a oração cujo núcleo é o verbo "chegar" - é nessa oração que se diz o que é que basta; configura-se, assim, um sujeito oracional. Quando o sujeito é oracional, seu verbo fica na terceira pessoa do singular. Justifica-se, assim, a forma "basta".

O problema está na concordância do verbo "chegar", cujo sujeito é "bons títulos", uma expressão no plural. Resta-nos, portanto, ajustar a concordância do verbo "chegar". Veja abaixo:

"O brasileiro adora ler. Basta chegarem às suas mãos bons títulos a preços baixos."

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- Ordem dos Termos -

"O levantamento mostra que, em 2008, as 54 empresas pesquisadas do setor, entre geradores, transmissores e distribuidores, pagaram R$ 46, 2 bilhões de uma receita de R$ 102, 5 bilhões em tributos e encargos."

Mais uma vez, a ordem dos termos interfere na clareza do texto. No fragmento selecionado acima, a expressão "em tributos e encargos" pode parecer estar associada ao último valor (R$ 102,5 bilhões), dada a proximidade entre ela e o número.

Sobretudo em textos que trazem números, é importante buscar a formulação mais clara, aquela que não dê margem a dúvidas. É claro que essa recomendação vale em qualquer situação, mas textos em que aparecem valores numéricos, por si sós, já são mais complexos.

No caso em questão, o primeiro valor (R$ 46,2 bilhões) é que se refere aos tributos e encargos, portanto é perto dele que a expressão deve estar. Seria possível dizer que "pagaram R$ 46, 2 bilhões em tributos e encargos" ou que "pagaram em tributos e encargos R$ 46,2 bilhões". A segunda formulação é ainda melhor que a primeira, dada a continuação da frase. Veja abaixo:

"O levantamento mostra que, em 2008, as 54 empresas pesquisadas do setor, entre geradores, transmissores e distribuidores, pagaram em tributos e encargos R$ 46, 2 bilhões de uma receita de R$ 102, 5 bilhões."

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- Verbo "Intervir" -

"O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) interviu para convencer [Andrea] Matarazzo, seu primo, de que a medida fora exagerada."

Eis uma das dúvidas que, de tempos em tempos, voltam a assombrar os redatores. Afinal, como é mesmo que se conjuga o verbo "intervir"?

Não é difícil perceber que se trata de uma palavra prefixada, ou seja, nasceu da adição do prefixo "inter-" ao verbo "vir". Assim, resta-nos seguir, passo a passo, a conjugação do verbo "vir". O equívoco mais frequente é seguir a conjugação do verbo "ver" (como ocorreu no exemplo transcrito), que não tem nada a ver com a história.

Assim, no presente do indicativo, temos o seguinte: eu venho/ eu intervenho, ele vem/ ele intervém, nós vimos/ nós intervimos, eles vêm/ eles intervêm.

Nas terceiras pessoas, vale a pena observar a acentuação: no verbo "vir", um acento circunflexo distingue a forma "vêm" (plural) da homônima singular ("vem"); no verbo "intervir", o singular recebe acento agudo ("intervém") e o plural recebe acento circunflexo ("intervêm"). As duas formas são acentuadas porque ambas são oxítonas terminadas em "-em".

No passado (pretérito perfeito), temos o seguinte: eu vim/ eu intervim, ele veio/ ele interveio, nós viemos/ nós interviemos, eles vieram/ eles intervieram.

Para não errar, basta conjugar o verbo "vir", que é a sua base. No modo subjuntivo, encontramos formas como "se eu viesse"/ "se eu interviesse", "quando ele vier"/ "quando ele intervier" etc.

Abaixo, o fragmento corrigido:

"O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) interveio para convencer [Andrea] Matarazzo, seu primo, de que a medida fora exagerada."

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- Verbo "Custar" -

"Custei para entender o que ele dizia!"

Eis uma frase comum nos mais diversos meios socioeconômicos e socioculturais do país (é isso mesmo, caro leitor interessado na língua portuguesa: "socioeconômico" e "sociocultural", sem hífen). Ouvimos diariamente "Eu custei..." , "Ele custou..."; será que voltamos à época da escravidão? Agora o leitor afirma: "Que pergunta mais tola essa!".

Realmente fiz uma simplória pergunta, mas o que sucede é que o verbo custar, segundo a norma culta da língua, que é o que nos interessa nesta coluna, só terá como sujeito uma pessoa, quando significar "ter determinado preço ou valor", portanto só se pode dizer "Eu custei..." e "Ele custou...", se houver a absurda ideia de venda de alguém.

Como, obviamente, a frase apresentada não possui esse significado, ela está inadequada ao padrão culto da língua, apesar de adequada à fala cotidiana.

O verbo custar, quando significar "ser difícil ou doloroso", será verbo transitivo indireto, exigindo a preposição a; terá como sujeito "a coisa, aquilo que é difícil ou doloroso", e terá como objeto indireto "a pessoa", que tanto poderá ser representada por um substantivo, como pelos pronomes oblíquos átonos me, te, lhe, nos, vos, lhes ou pelos pronomes oblíquos tônicos mim, ti, si, ele, ela, nós, vós, eles, elas, sempre acompanhados de preposição.

Deveremos dizer, portanto, se quisermos adequar-nos à norma culta, "Custou-me..." ou "Custou a mim..."; "Custou-lhe..." ou "Custou a ele...".

Observe que, à frente dessa estrutura, haverá um verbo no infinitivo ("entender", no caso apresentado). Apesar de estranho, é adequado dizer "Custou a mim entender".

A frase apresentada, então, deverá ser corrigida desta maneira:

"Custou-me entender o que ele dizia!"

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- Nomes de cores têm regras próprias de pluralização -

"Está presente em cereais integrais e verduras verde-escuro."

O plural dos nomes de cores costuma causar alguma confusão. Para elucidar o problema, vale a pena lembrar que esses termos geralmente são adjetivos compostos, portanto seguem a regra universal de palavras assim formadas: flexiona-se apenas o último elemento. Assim: camisas verde-escuras, paletó verde-escuro e assim por diante.

Pode ocorrer, entretanto, que o nome de cor seja tomado como substantivo (nesses casos, é antecedido de um artigo). A concordância será feita, então, de acordo com as regras dos substantivos compostos (pluralização de ambos os elementos). Assim: "Os verdes-escuros e os azuis mesclavam-se com tons mais claros".

Fica claro, então, que o primeiro passo é saber se estamos diante de um substantivo ou diante de um adjetivo, pois cada qual tem sua regra de pluralização. Estando diante do adjetivo, cumpre observar certas situações de emprego.

Um adjetivo, seja ele qual for, posposto a mais de um substantivo (referente a todos esses substantivos) poderá concordar com o elemento mais próximo ou com a totalidade dos substantivos, que, se tiverem gêneros diferentes, levarão o adjetivo para o masculino plural. No fragmento acima, o adjetivo "verde-escuro" refere-se apenas ao último elemento, portanto é com ele que concorda: verduras verde-escuras.

Cumpre ainda observar que, se o segundo elemento do adjetivo composto for um substantivo, o composto permanecerá invariável. É por isso que não têm plural adjetivos como os seguintes: amarelo-ouro, verde-limão, azul-turquesa, cor-de-rosa, cor de vinho etc. Caso apenas o substantivo indique a cor, também não haverá plural: camisas cinza, carros prata, vestidos laranja etc.

Abaixo, o fragmento corrigido:

"Está presente em cereais integrais e verduras verde-escuras."

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- Locuções de valor negativo -

"Procurados pela Folha, nenhum responsável pela empresa foi encontrado para comentar o caso."

O fragmento carrega um defeito de concordância verbal, pois o termo "procurados" (no plural) refere-se a "nenhum responsável" (singular). A confusão surge pelo fato de a expressão "nenhum responsável" estar formalmente no singular, mas designar uma ideia plural. O mesmo se dá com a locução "nenhum dos responsáveis", menos coloquial, mais adequada ao discurso escrito.

Mesmo que usasse a locução "nenhum dos responsáveis", o redator deveria fazer a concordância no singular (o núcleo da expressão é o pronome "nenhum"). Se, entretanto, apenas fizesse isso, criaria um texto, no mínimo, estranho: "Procurado pela Folha, nenhum dos responsáveis...". A estranheza decorre do fato de que, desse modo, se diz, literalmente, que a reportagem procurou "nenhum dos responsáveis", quando é preciso dizer que procurou os responsáveis e não encontrou nenhum deles.

Para corrigir o texto, portanto, será preciso alterar mais que a concordância. Abaixo, uma sugestão:

"Procurados pela Folha, os responsáveis pela empresa não foram encontrados para comentar o caso."

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- O ex- e o antigo -

"A grande tarefa da igreja, que ele cumpriu sob João Paulo 2º, como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (ex- Inquisição), foi a de neutralizar a teologia da libertação e conter o clero progressista."

O prefixo "ex-", no sentido de movimento para fora, nunca se separa por hífen do termo ao qual se liga. Assim, temos palavras como "expulsar", "expatriar", "exportar", "exumar" e "excluir", entre muitas outras.

Ocorre, no entanto, que, desde o início do século 19, esse prefixo tem sido usado - e sempre com hífen - para indicar que uma pessoa perdeu algum cargo ou condição. Daí termos como "ex-marido", "ex-deputado", "ex-presidente", "ex-diretor", etc.

Constitui, portanto, impropriedade empregar o prefixo para entes que não sejam pessoas. A Congregação para a Doutrina da Fé pode ser a antiga Inquisição, não "ex-Inquisição". Claro está que não se trata de cargo ou condição perdida por alguém, mas, grosso modo, de uma instituição que substitui outra.

É apropriado, nesse tipo de ocorrência, usar o termo "antigo": "antiga Inquisição", "antiga URSS", "antiga Febem", etc.

Veja, abaixo, o texto corrigido:

"A grande tarefa da igreja, que ele cumpriu sob João Paulo 2º, como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (antiga Inquisição), foi a de neutralizar a teologia da libertação e conter o clero progressista".

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- Verbo "Extorquir" -

"Policiais do DEIC são flagrados extorquindo comerciantes."

É uso no português no Brasil, mas a norma culta ainda não aceita o verbo "extorquir" com complemento direto de pessoa. Antônio Houaiss explica essa tendência como possível influência de verbos como "coagir", "ameaçar" e "constranger", que podem ter por complemento direto uma pessoa.

A regência aceita pela norma culta é "extorquir algo de (ou a) alguém": extorquir dinheiro de comerciantes, extorquir um segredo a alguém etc. Note-se que o objeto indireto pode vir introduzido tanto pela preposição "de" como pela preposição "a". É possível empregar o pronome "lhe" como complemento indireto. Assim: "Extorquiu-lhe informações", "Extorquiu-lhe um segredo" etc.

O substantivo correlato "extorsão" rege as preposições "contra", "a" e "de", em construções do tipo "extorsão de certa quantia contra certa pessoa" (extorsão de milhares de reais contra o empresário, extorsão de segredo a alguém etc.).

Considerando a dificuldade de produzir títulos jornalísticos, em geral apertados em espaços exíguos, aqui vai uma sugestão:

"Policiais do DEIC praticam extorsão contra comerciantes."

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- Verbo "Ressarcir" -

"O governo nunca ressarce os prejuízos decorrentes de seus erros."

Essa frase li num artigo sobre determinado governo estadual brasileiro. A intenção do articulista foi dizer que não há indenização, compensação, reparo. O problema é que o verbo ressarcir é verbo defectivo, ou seja, não é conjugado em todos os tempos e pessoas.

Faltam-lhe, no presente do indicativo, as pessoas eu, tu, ele e eles; falta-lhe todo o presente do subjuntivo e todo o imperativo negativo; faltam-lhe, finalmente, no imperativo afirmativo, as pessoas tu, você, nós e vocês. Nos outros tempos, ele é conjugado como qualquer verbo regular terminado em ir.

Antes de continuarmos, temos que identificar os tempos e os modos citados: o presente do indicativo é o tempo que indica a ação cotidiana, do dia a dia, caracterizado pela expressão todos os dias, eu... ; o presente do subjuntivo é o tempo que indica desejo, intenção, caracterizado pela expressão espero que eu... ; o imperativo é o modo que indica ordem, pedido, conselho ou apelo, como em Venha até aqui, menino.

O verbo ressarcir deve, então, ser conjugado da seguinte maneira:

Presente do indicativo: Não há as pessoas eu, tu, ele, eles; nós ressarcimos, vós ressarcis (a sílaba tônica é cis).

Presente do subjuntivo: Não há pessoa alguma.

Imperativo afirmativo: Não há as pessoas tu, você, nós, vocês; ressarci vós (a sílaba tônica é ci).

Imperativo negativo: Não há pessoa alguma.

Pretérito perfeito do indicativo: eu ressarci, tu ressarciste, ele ressarciu, nós ressarcimos, vós ressarcistes, eles ressarciram.

Todos os outros tempos são regulares, como aconteceu com o pretérito perfeito do indicativo. Basta conjugar qualquer verbo terminado em ir e seguir sua conjugação.

A frase apresentada deveria, então, ser estruturada por algum verbo sinônimo de ressarcir, como indenizar, reparar, compensar:

"O governo nunca compensa os prejuízos decorrentes de seus erros."

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- Verbo "Perguntar" -

"Ele foi perguntado sobre assuntos que variaram de tarifa básica da telefonia, municipalização dos serviços de água e esgoto até a violência."

Esse texto constava da primeira página de um jornal. Tratava de uma entrevista com um dos candidatos a prefeito de Londrina no auditório da Acil. Há a utilização do verbo "perguntar" que parece estar inadequada, pois a primeira frase que vem à mente em relação a esse verbo é "quem pergunta, pergunta algo a alguém". Como, então, pode estar certo dizer "Ele foi perguntado sobre algo?" O certo não seria "A ele foi perguntado algo?" Vamos à explicação:

O verbo "perguntar" significa "fazer pergunta(s) a alguém, solicitar informação, indagar, inquirir, interrogar, investigar". Geralmente exige uma preposição (a, por ou sobre). Por exemplo: "Perguntou a ele o nome do pai"; "O gerente perguntou ao supervisor pelos funcionários faltosos"; "O professor perguntou sobre o livro lido".

O verbo "perguntar", porém, pode ser usado também sem preposição alguma, inclusive em relação à pessoa. Pode-se dizer, então, por exemplo, "Ele perguntou a razão de tanta preocupação", cujo significado é "Ele indagou a razão de tanta preocupação". Também se pode dizer, por exemplo, "O investigador perguntou todos os envolvidos no caso", cujo significado é "O investigador interrogou (investigou, fez perguntas a) todos os envolvidos no caso".

Muito bem. Quando o verbo não exigir preposição, como aconteceu nos dois últimos exemplos, é possível colocar o elemento que sofre a ação do verbo "perguntar" ("a razão" no primeiro exemplo e "todos os envolvidos" no segundo) como sujeito do verbo, ficando assim as frases: "A razão de tanta preocupação foi perguntada (indagada) por ele" e "Todos os envolvidos no caso foram perguntados (interrogados) pelo investigador".

Essa foi a regra respeitada pelo jornalista que escreveu o texto. Os presentes à entrevista fizeram perguntas ao candidato sobre diversos assuntos. Utilizando o verbo "perguntar" na frase, podem-se construir dois períodos: "Perguntaram o candidato sobre assuntos..." ou "O candidato foi perguntado sobre assuntos...". "Candidato", que é um substantivo, pode ser substituído por um pronome, assim ficando as frases: "Perguntaram-no sobre assuntos..." ou "Ele foi perguntado sobre assuntos...".

O jornalista que escreveu o texto prestou um grande serviço aos leitores, mostrando uma maneira adequada, porém de pouquíssimo uso, do verbo "perguntar".

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- A colocação pronominal -

"João Moreira Salles, um dos mais prestigiados documentaristas brasileiros, (...), não faz parte do coro otimista que reúne-se em torno do gênero no Brasil."

Os pronomes pessoais do caso oblíquo na forma átona podem aparecer antes da forma verbal (próclise) ou depois dela (ênclise). Em situações hoje pouco frequentes, podem interromper uma forma verbal - é a chamada mesóclise ("encontrá-lo-á", "documentá-lo-ia"), sempre com verbos no futuro.

Tais pronomes exercem nas orações a função de objeto (direto ou indireto), ou seja, são complementos dos verbos. Na ordem direta, portanto, ficam depois dos verbos: "O rapaz telefonou-lhe", "A medida favoreceu-o" etc.

Há, entretanto, situações que levam à próclise. Por exemplo, as orações subordinadas desenvolvidas (não reduzidas de gerúndio, particípio ou infinitivo), portanto as que são iniciadas pelas conjunções subordinativas ou pelos pronomes relativos, requerem a próclise.

Para efeito de memorização, as pessoas dizem que as conjunções e pronomes relativos "atraem" o pronome átono. No trecho selecionado acima, observa-se que o redator negligenciou esse princípio. O pronome relativo "que" está claramente "atraindo" o pronome oblíquo átono "se". Assim: "que se reúne", não "que reúne-se".

Nessa história de atrair e ser atraído, tem havido muita confusão. Há quem imagine que a ênclise também seja fruto de uma espécie de atração exercida pelo termo posterior ao pronome. Por incrível que pareça, há muita gente fazendo esse raciocínio.

Que fique claro, portanto, que a tal "atração" só pode ser exercida pelo termo anterior, pelo termo que inicia a oração a que pertence a forma verbal. A ênclise não é fruto de atração por termo posterior, é, na verdade, a posição "natural", própria da ordem direta.

Mesmo no Brasil, onde a tendência é a universalização da próclise, a ênclise prevalece com os verbos no infinitivo ("É preciso detê-lo", "Vou contar-lhe"), com as formas de imperativo afirmativo ("Não saia daí e diga-me tudo o que ocorreu") e no início dos períodos ("Explicou-lhe tudo em detalhes").

Este texto não esgota o vasto capítulo da colocação pronominal em português.

Abaixo, a correção:

João Moreira Salles, um dos mais prestigiados documentaristas brasileiros, (...), não faz parte do coro otimista que se reúne em torno do gênero no Brasil.
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- Paralelismo e Correlações -

Cruzamento de estruturas correlativas prejudica a fluência do texto
 
"No campo dramático, o filme é ainda mais sincero, porque esse sentimento ali vem menos do drama mostrado em cada personagem, mas de algo que o espectador trouxe consigo."

Neste espaço, temos tocado na questão do paralelismo gramatical, fundamental para a clareza e a fluência do texto. O assunto tem-se tornado recorrente, dada a frequência com que se observam defeitos desse tipo em textos produzidos não raro de afogadilho, na corrida contra o tempo própria das Redações de jornal.

O que se pode verificar no trecho selecionado é o cruzamento de duas estruturas correlativas - o começo de uma e o fim de outra. O redator estabelece uma relação de comparação ao dizer que "o sentimento vem menos do drama" - menos do drama (do) que de outra coisa. A expectativa do leitor é, entretanto, quebrada pelo uso da conjunção adversativa ("mas"), que resolveria outra correlação ("não isso, mas aquilo").

Naturalmente, há duas maneiras de corrigir o trecho - optando por uma ou outra correlação. Para usar o "mas" na segunda parte, temos de usar a negação na primeira; para usar "menos" (ou "mais") na primeira, temos de usar "que" ou "do que" na segunda. Veja, abaixo, as sugestões:

No campo dramático, o filme é ainda mais sincero, porque esse sentimento ali vem menos do drama mostrado em cada personagem (do) que de algo que o espectador trouxe consigo.

No campo dramático, o filme é ainda mais sincero, porque esse sentimento ali vem não do drama mostrado em cada personagem, mas de algo que o espectador trouxe consigo.


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- Sem sujeito próprio, infinitivo não se flexiona -

"Em certa medida, a desincompatibilização é útil aos políticos: permite a eles usarem o poder de forma dissimulada."

Como sempre lembramos, há considerável flutuação nas regras de emprego do infinitivo, flexionado ou não. Um raciocínio que pode ser útil no momento da dúvida é o de que a flexão ocorre para indicar o sujeito - o infinitivo flexionado, também chamado de infinitivo pessoal, recebe apenas a desinência número-pessoal (informação de sujeito).

Dito isso, cumpre observar que há muitas situações em que o infinitivo não tem mesmo sujeito, ou seja, é empregado apenas para indicar a ação em si. O leitor se lembrará de frases como "Navegar é preciso, viver não é preciso", "É proibido fumar" ou "Praticar esportes faz bem à saúde", em que ninguém imaginaria flexionar os infinitivos, dado que as ações não são atribuídas a alguém em particular.

No trecho destacado, embora não pareça à primeira vista, dá-se o mesmo caso. A proximidade do pronome "eles" leva o redator a imaginar que o pronome seja o sujeito do infinitivo - daí a flexão. Observando atentamente a construção, verá que o pronome "eles", antecedido da preposição "a", é o complemento objeto indireto do verbo "permitir" (a desincompatibilização permite algo a alguém), não sujeito do infinitivo.

A oração infinitiva ("usar o poder de forma dissimulada") é o objeto direto do verbo "permitir" - em outras palavras, é aquilo que se permite "a eles". Com uma transposição de voz verbal, obteríamos algo como "Usar o poder de forma dissimulada é permitido a eles pela desincompatibilização". Na voz passiva, fica fácil perceber como o verbo "usar" não tem sujeito próprio.

Outra maneira de desfazer a confusão - e enxergar a estrutura da frase - é substituir o objeto indireto "a eles" pela sua forma equivalente "lhes": "permite-lhes usar o poder...". Dificilmente o redator pensaria em escrever "permite-lhes usarem".

Abaixo, o trecho corrigido:

"Em certa medida, a desincompatibilização é útil aos políticos: permite a eles usar o poder de forma dissimulada".

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- Verbo Fazer -

"A violência faz com que os cidadãos de bem se enclausurem".

Frases desse tipo fazem com que eu creia que o cidadão que a escreveu precise aprender as regras da língua portuguesa com urgência, pois a falta de estudo faz com que ocorram muitas inadequações gramaticais e isso faz com que as pessoas se acostumem a falar erradamente.

E aí, caro internauta, que está achando de meu texto?

Maravilhoso, não é mesmo? Não! Está horrível! Recheado de um dos vícios mais comuns do Brasil: o verbo fazer.

Nós, brasileiros, o adoramos; usamos fazer para tudo: "fazer café", "fazer a cama", "fazer os cabelos", "fazer as unhas", "fazer um bolo", "fazer sala", "fazer onda", "fazer neném", "fazer amor", "fazer um favor", "fazer uma promessa", "fazer embaixadinhas", "fazer gol", "fazer marcação", "fazer as malas". Faça tudo, mas me faça um favor: pare de usar o verbo fazer para tudo!!

Quanto à frase apresentada, é inadequado usar o verbo "fazer" no sentido de "trazer como consequência". O aconselhável é que se use um destes verbos: "acarretar", "causar", "implicar", "levar alguém a fazer algo" ou mesmo "trazer como consequência". O primeiro parágrafo do meu texto ficaria melhor assim:

"Frases desse tipo me levam a crer que o cidadão que a escreveu precise aprender as regras da Língua Portuguesa com urgência, pois a falta de estudo causa a ocorrência de muitas inadequações gramaticais e isso acarreta às pessoas o costume de falar erradamente."

A frase apresentada também ficaria mais bem estruturada se fosse escrita, por exemplo, desta maneira:

"A violência leva os cidadãos de bem a se enclausurarem."

ou

"A violência acarreta (implica, causa) o enclausuramento dos cidadãos de bem."

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