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A GRANDE LIÇÃO DO GRANDE IRMÃO -

por Wagner Bezerra e Heloisa Dias

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Explode no mundo a violência: terror, sequestro, assaltos, assassinatos, corrupção, tortura, humilhação, fome, dor, violência disseminada, compartilhada, globalizada. Enquanto isso, nas TVs de todo o mundo, busca-se emoldurar a realidade a partir de uma visão fortemente dominada pela “dança” dos índices de audiência. Pelo menos esta é a justificativa para a repetição incessante de fórmulas e clichês desgastados, que sempre voltam apresentados como novidade pelos programadores e concessionários das várias redes de tv.

A moldura preferida no momento é o reality show, formato que chegou em nossa casa após ganhar fama internacional. Batizado com nomes sugestivos como Big Brother, Casa dos Artistas e No Limite, o reality show oferece como produto básico satisfazer o desejo dos telespectadores com cenas de exibicionismo e auto-flagelo. Some-se a isto a capacidade do participante ao eliminar seus adversários da competição e, consequentemente, ter sua grande chance de experimentar mais do que os quinze minutos de fama já conquistados.

Ora, que tipo de realidade é esta em que o excitante é ver o outro em situações muitas vezes constrangedoras, como ir ao banheiro diante de câmeras ou “pedir a cabeça” de uma pessoa por quem se criou afeição? Por estranho que possa parecer, a lógica dessa (re)criação remete à das lutas entre os gladiadores na Roma antiga, uma espécie de gameshow onde os participantes eram guiados por duas necessidades básicas: eliminar o adversário e exibir-se para saciar uma plateia ávida por emoções baratas e bizarras. Tanto na arena de ontem, quanto na telinha de hoje, o vencedor continua sendo aquele que consegue eliminar seus adversários mais rapidamente; e o público segue experimentando o prazer de ver o sofrimento alheio, seja com o sangue que outrora jorrava da espada, seja com a superexposição, a delação e outros ingredientes resultantes dos mais baixos sentimentos, nessa modalidade pós-moderna de combate entre iguais.

Se compararmos o que nos oferece a arena pós-moderna do Big Brother dos nossos dias - sexo, mentiras e traição - com a mensagem do grande irmão de George Orwell, em 1984? Seríamos todos reféns de um voyeurismo do qual não conseguimos escapar, condenados a nos manter eternamente divididos entre atores e observadores da nossa própria indiferença ante a violência que acomete outros indivíduos, outras famílias, outros povos?

Parece que o grande irmão de Orwell, aquele que, na contramão dos atuais Big Brothers, suscitou tanta discussão sobre nossos medos em relação à invasão da privacidade, pode nos permitir compreender mais da realidade atual do que inspirar a luta pela audiência na TV.

Quem sabe, quando negamos informação e entretenimento de boa qualidade aos famintos consumidores daquilo que é servido pela mídia eletrônica durante anos a fio e deixamos de oferecer algo diferente do que é exibido atualmente pela maioria absoluta dos programas da tv aberta brasileira, não continuamos a nos envenenar infinitamente. E o amontoados de cadáveres que cresce a cada dia nos grandes centros, em Campinas, Santo André, Kabul, Nova York, Jerusalém ou Favela da Maré? Talvez seja a sociedade transformando em excremento, após longa indigestão, aquilo com o qual nos alimentamos durante todos esses anos de uso desordenado de tão importante conquista, a liberdade de expressão jornalística, artística e cultural.

Afinal, enquanto seguimos negando às crianças e jovens conteúdo alternativo à sórdida e fétida fórmula baseada em sexo e violência na TV, estaremos condenados a produzir sujeitos hedonistas, reféns do consumismo e capazes de atitudes de total alheamento em relação ao outro.

Quando, no Brasil, negamos a Constituição e sepultamos em cova rasa o que determina o tão decantado artigo 221, onde está previsto que a TV terá como finalidade prioritária a educação, nos condicionamos a aceitar, sem parcimônia, os frutos daquilo que temos oferecido a nossos filhos, principalmente através de nosso maior e mais competente canal de informação e educação de todos os tempos: a televisão.

Quem sabe é chegado o momento de, humildemente, aceitarmos a vocação educativa da TV? Entendermos que tanto faz o formato do programa, a linguagem audiovisual adotada, seja jornalismo, novela, filme, ficção, show de auditório, mini-série, desenho ou programa infantil, pouco importam os meios, pois, no fim, todo conteúdo televisivo sempre será assimilado como educação. Ou seja, tudo que a mídia eletrônica emite é capaz de interferir, ensinar, modificar, inseminar, contaminar e encantar corações e mentes.

Doravante, quando na hora do almoço ou jantar os jornais nacionais exibirem sem pudor nossos cadáveres, seria prudente pensarmos noutra lição deixada por Orwell: sim, é possível escapar das armadilhas do grande irmão. Caso contrário, corremos o risco de, no próximo capítulo do nosso reality show particular sermos os protagonistas das cenas de violência que a TV expõe diariamente e que, por enquanto, tocam apenas momentaneamente nossos sentimentos, pois, afinal, dizem respeito somente aos outros.

Quanto ao possível engajamento da TV no tão falado esforço pela paz mundial, não basta meia dúzia de filmetes de 15 segundos ou dúzia e meia de “artistas” com sorriso de creme dental pronunciando palavras insossas. Talvez o que ninguém da TV ousa dizer é que esse movimento depende de outros fatores. Primeiro, do discernimento dos patrocinadores que, por hora, fomentam tudo que é produzido e cheire a pontos na audiência; segundo, dos criadores que têm buscado reinventar em muitos programas as relações humanas tendo como base a intriga, a trapaça, a traição, a superexposição da intimidade. E finalmente, do público que, infelizmente, seja falta de opção ou preferência, depois de secar as lágrimas sobre o sangue derramado do último sequestrado, do último assassinado, do último Celso Daniel, da última vítima do terrorista-bomba, do último bebê morto por desnutrição, não cansa de aplaudir as novas arenas e nossos quase modernos gladiadores. 




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